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junho 28, 2004
tarantino 101

tarantino 101. como nos cursos básicos. introdução à neurologia. aprenda a cortar o seu próprio cabelo em apenas 10 passos. querem ser o quentin tarantino? estão no sitio certo. ou se calhar não estão, que se eu soubesse o segredo não estava aqui sentado sozinho a escrever isto. estaria provavelmente a repor a verdade dos factos com um filme em que o gordon liu arrumava a uma thurman com um braço atrás das costas. ou com os dois.
a obsessão de tarantino com o cinema está vastamente documentada. se me perguntarem talvez até demais. depois de kill bill as listas de influências e referências choveram. só o site tarantino.info lista para aí umas 80. e aposto que não repararam em pelo menos uma dúzia. tarantino é um film geek, e usa a medalha no peito para toda a gente ver. nem sequer é o único, já ouviram bem o scorsese a falar dos filmes que o influenciaram a ele? a mim parece-me que a razão do fascínio à volta das influências do realizador se deve à obscuridade dos títulos referidos. não ouvimos sturges, ou hawks ou ford. não ouvimos buñuel ou de sica. ouvimos five venoms, lucio fulci, jack hill e sonny chiba.
claro que há um lado negativo em tudo isto. kill bill vol.1 pode ser um dos filmes mais cool de que há memória em tempos recentes. mas é todo estilo e nenhuma substância. e o facto de constantemente referenciar trabalhos que lhe são superiores também não lhe faz grandes favores. mas a verdade é que a maior parte das pessoas que foram ver o filme não estavam, como eu, a jogar ao "onde é que está o wally" cinematográfico. para a maior parte delas o material é tão fresco como se tivesse saído integralmente da cabeça de tarantino. e até podem ouvi-lo a falar daqueles filmes esquisitos todos nas entrevistas que não vão mexer o rabo para os procurar. quem é que quer ver um filme de artes marciais que não seja falado em inglês? melhor, quem quer um filme seja lá de que género for que não seja falado em inglês?
mas kill bill, veja-se com que olhos se vir, é muito mais do que um mero exercício de deejaying cinematográfico. nem seria preciso o volume 2, que trouxe a substância ausente do primeiro e aquilo a que alguns chamaram o toque pessoal (para alguém que respira estes filmes como tarantino o faz, acredito que o vol.1 seja intensamente pessoal). é, de qualquer maneira, mais do que copy/paste, mais do que "olhem como sou cool", uma declaração sincera de amor pelo cinema. por todo o cinema. do mais xunga ao, bem, ao mais xunga. atentem que aqui xunga é apenas uma designação cómoda, não um adjectivo. a qualidade na arte é sempre um conceito discutível. pessoalmente a escolha entre uma produção merchant/ivory e o lo lieh a partir a boca a alguém não me coloca qualquer dúvida. não é que tenha alguma coisa contra o anthony hopkins ou a emma thompson, mas temos de encarar os factos: não duravam 30 segundos contra o lo lieh.
desculpem se me entusiasmei. isto era suposto ser uma introdução de um parágrafo à lista que se segue. o seu propósito ultrapassa-me. começou por ser uma piada numa mailing list e entretanto vieram-ma cobrar. existem dezenas de listas mais exaustivas na net. não tenho os conhecimentos, nem o tempo, e, de qualquer maneira, não era esse o meu objectivo aqui. escolhi quinze filmes que me parecem reflectir uma possível génese do universo de tarantino, limitando-me aos que vi e aos de que mais gosto. vejam-nos religiosamente, e tudo o que encontrarem à volta, e pode ser que também consigam ser o quentin tarantino. se isso não acontecer sairão da experiência enriquecidos pelo visionamento de alguns excelentes filmes. e da próxima vez que virem o kill bill ou reservoir dogs vão talvez vê-los com outros olhos. divirtam-se e não se esqueçam de agradecer ao zombie quando estiverem a receber o óscar por "godzilla e os ninjas enfrentam os mortos-vivos de shaolin na prisão das mulheres canibais".
city on fire, de ringo lam (1987)
tem o chow yun-fat no seu periodo mais carismático em rota de colisão com a namorada por causa do trabalho, e dividido entra a amizade e o dever de policia infiltrado num bando de assaltantes. um clássico menor do cinema de hong kong e o terceiro acto é o reservoir dogs.
battles without honor and humanity, de kinji fukasaku (1973)
talvez o meu preferido entre os filmes que vi sobre a yakuza. épico passado em hiroshima que desmistifica o código moral do crime organizado japonês. traições, braços decepados, sangue a jorros, nenhuma honra, nenhuma humanidade.
dressed to kill, de brian depalma (1980)
o meu candidato para único giallo genuíno feito em território americano. depalma no zénite da sua fase hitchcock rouba liberalmente ao mestre e pede uns truques emprestados aos italianos. mas com estilo. além disso o michael caine e o dennis franz no mesmo filme é bom demais para passar ao lado.
foxy brown, de jack hill (1974)
foxy brown é sexy, esperta, tem contas para ajustar e, pelos vistos, é cinturão negro em bancos de bar. parece que nos anos 70 dava para esconder uma arma no afro. e vocês nunca viram uma mulher até verem a pam grier neste filme.
paura nella città dei morti viventi, de lucio fulci (1980)
os mortos-vivos, pelo menos os italianos, saem directamente das portas do inferno. e as meninas que não tiverem treinado com o pai mei e forem enterradas vivas são bem capazes de ficar com uma picareta cravada na cara. fulci quando foi mau foi muito mau, mas poucos chegam aos calcanhares de quando foi bom.
lady snowblood, de toshiya fujita (1973)
o template original sobre o qual o primeiro volume de kill bill foi construído. mas com uma protagonista mais bonita, que luta melhor e canta como um anjo.
executioners from shaolin, de chia-liang liu (1977)
com todo o respeito que me merece o gordon liu, pai mei nunca foi tão bom (ou tão mau) como nas mãos de lo lieh. e um punho sem sombra na cara de todos os que criticam a debilidade narrativa do cinema de kung fu.
charley varrick, de don siegel (1973)
quem é que dizia que o walter matthau conseguia tornar seu um duro escrito para clint eastwood? charley é mais dirty do que harry, mata bons e maus sem problemas de consciência e ainda arranja tempo para dormir com a mulher do parceiro de comédias jack lemmon.
caged heat, de jonathan demme (1974)
mulheres na prisão, pela mão do respeitável sr. demme em principio de carreira, e o meu favorito entre os que não incluem a pam grier. de qualquer maneira, barbara steele e erica gavin no mesmo filme é a matéria de que são feitos os sonhos do zombie.
à bout de souffle, de jean-luc godard (1960)
godard foi o tarantino dos anos 60, completo com pose cool e cinema cravejado de referências. parece que o quentin gosta mais do remake do jim mcbride, mas também ninguém é perfeito.
il buono, il brutto, il cattivo, de sergio leone (1966)
o melhor western. de sempre.
le doulos, de jean-pierre melville (1963)
filme de gangsters existencial pelo realizador que provou que os franceses podiam fazer bem mais do que apenas inventar a designação film noir. pode-se argumentar que melville foi um dos inventores da nouvelle vague mas não lhe vamos levar isso a mal.
hard boiled, de john woo (1992)
john woo e chow yun-fat, reunidos no melhor filme de acção de sempre, depois de em conjunto terem feito the killer que, como toda a gente sabe, também é o melhor filme de acção de sempre.
shogun assassin, de kenji misumi (1980)
filho bastardo, para distribuição internacional, dos dois primeiros capítulos da saga lone wolf and cub, com melhores razões para estar nesta lista do que uma simples piada no final do kill bill: vol.2.
viva chiba! the bodyguard, de tatsuichi takamori (1973)
…and i will execute great vengeance upon them with furious anger, who poison and destroy my brothers; and they shall know that i am chiba the bodyguard when i shall lay my vengeance upon them. alguém tem perguntas?
::publicado por jorge em 28/06/04







