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junho 17, 2004

pieces of april

pieces_of_april.jpg

um filme de peter hedges
com katie holmes, derek luke, patricia clarkson e oliver platt
estados unidos, 2003 imdb

muito antes de ver o filme, muito antes de saber que pieces of april é uma pequena maravilha, já tinha uma razão que justificava, fosse ele bom ou mau, a sua simples existência: a pequena compilação de canções que compõem a banda sonora. com vinte e poucos minutos de duração, a compilação reúne dez magníficas canções — cinco delas inéditas — desse pequeno génio que dá pelo nome de stephin merritt, quer a solo, quer por dois dos seus projectos paralelos: os magnetic fields e os the 6ths.

pieces of april é todo ele filmado em suporte digital e isso é coisa que ainda me atrofia o paladar. entrei na sala com o pé direito a todo o gás, empolgado pela banda sonora, e o esquerdo a arrastar-se, relutante por não sentir o cheiro a celulóide… tipo zombie, estão a ver? quando saí da sala, os dois pés vinham com o passo equilibrado — algo aconteceu… huuumm… okay, concordo com os meus pés. pieces of april é um encanto de filme e constará nas listas dos mais belos deste ano.

então e essa coisa das câmaras digitais? já passou? não, não passou, mas já não dói muito. no entanto, há um reparo que tenho de fazer: meus amigos… há à venda — porque há muito que já os inventaram — tripés também para as câmaras digitais. até aqui estamos de acordo, certo? eu sei que a língua é uma entidade mutável, mas que eu saiba, até ao momento, "digital" ainda não é sinónimo de "tremeliques". portanto… já se acabava com essa merda, não?

expostas as minhas reticências nesse campo, onde é que pieces of april marca a diferença? no mais importante de tudo: esta pequena pérola relembra-nos que a história tem primazia sobre qualquer outro aspecto de um filme, do estilo à narrativa, passando até pela composição das personagens — o que é que adianta ter um marlon brando/don corleone se não houver uma história onde possa habitar? (este parágrafo é o pretexto para um texto que será aqui publicado na próxima semana).

peter hedges, que recentemente escreveu o argumento de about a boy, adaptado do romance de nick hornby, tem aqui a sua estreia na realização, a partir de um argumento seu. hedges revela, em qualquer um destes campos, um certo talento para captar a condição humana no seio da confusão social que rodeia as suas personagens. os actores de pieces of april facilitam-lhe o trabalho e oferecem-lhe um punhado de interpretações consistentes; algumas delas podiam ter muito mais dimensão e profundidade, mas aí a culpa recai mais sobre o argumento de hedges, que por vezes se apoia em clichés para enfeitar a história.

tudo acontece num espaço de horas, durante o dia de acção de graças. april burns é o patinho feio de uma família que não a respeita; a irmã é ciumenta, o irmão é indiferente, a mãe sofre de cancro e já perdeu a esperança na filha, e o pai é o único que ainda lhe devota alguma confiança. ainda assim, april anseia pela reconciliação e convida a família — que é do mais disfuncional que há — para jantar em sua casa nesse dia especial. o problema é que a miúda não sabe cozinhar e, para complicar, o forno deu o berro. como não se pode assar um peru ao sol, ela tem de descobrir no prédio um vizinho que lhe disponibilize o forno. claro que isto não é uma linha recta e os obstáculos acumulam-se.

o filme segue esta história central, mas acompanha ainda duas histórias de suporte: primeiro, as peripécias da viagem de carro da família de april até nova iorque, e, segundo, a história de bobby, o namorado negro, que acaba por ser o calcanhar de aquiles do filme. hedges joga aqui com os estereótipos deste tipo de personagem e lança-o numa missão - ambígua para espectador — cujo único propósito é criar suspense e alarme sobre a natureza de bobby.

de uma forma geral, o drama não é forçado e o humor brota naturalmente das situações. pieces of april segue calmamente o seu caminho e os tropeções não lhe abalam o equilíbrio. as suas falhas — e a sua sinceridade para com essas falhas - acabam, isso sim, por torná-lo mais humano, que é exactamente o que april e a sua família são: humanos.

(6/10)
marco

::publicado por jorge em 17/06/04

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